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Desde 1858 Ela nos esperava
Angela Maria Tomé - 2008/11/05

Atravessar os escarpados Pirineus em direção à França, especialmente durante os meses de outono, é uma experiência verdadeiramente inesquecível. O colorido da vegetação varia numa miríade de tons amarelos, dourados, vermelhos, marrons, verdes.

A vista da atraente configuração das montanhas aí colocadas por Deus, dos verdadeiros tapetes de grama que bordejam as íngremes encostas, dos altos picos com recortes que desenham mil figuras ajuda a alma a distanciar-se de seus problemas corriqueiros e elevar-se. Na verdade, esses belos panoramas favorecem o vôo da alma, convidando- a a se tornar mais contemplativa.

LOURDES_RAE 14_PAN.jpgNão foi, entretanto, para admirar a beleza dos Pirineus que o grupo de peregrinos no qual eu estava incorporada empreendeu essa viagem. Tínhamos um objetivo bem superior: íamos em busca de belezas sobrenaturais, íamos a Lourdes.

Quanto mais nos aproximávamos da cidade-santuário, mais se afirmava em nós a certeza de que a Santíssima Virgem nos esperava. Era o fim de uma longa espera, que se iniciou em 1858, quando Ela apareceu, e na luz divina contemplou os milhões de almas que viriam visitá- la. Chegara finalmente a nossa vez.

Depois de nos desvencilharmos das bagagens, saímos para o Santuário. O local amplo, bem-arranjado e limpo convida a andar rápido, para apressar o momento do encontro.

Mas aos poucos e sem perceber, fomos diminuindo os nossos passos. Chamava nossa atenção o silêncio profundo do local. À direita e à esquerda, grandes cartazes em diversas línguas começavam a fazer ouvir na alma as palavras de Maria: Rezai e fazei penitência pelos pecadores . Ide beber na fonte, lavai vossa face e Deus purificar á vosso coração.

Se alguém tiver sede, venha até Mim e beba. A água que Eu lhes darei se tornará fonte de vida eterna.

Lentamente fomos nos aproximando da gruta onde Santa Bernadete recebeu a visita da Mãe de Deus. Que espetáculo imponente, inesperado! A gruta está encravada em um alto rochedo e tem um nicho natural em cuja base pousaram os pés da Santíssima Virgem. As grandes rochas de que é formada são de um tom cinza escuro, muito brilhante.

O artístico espírito francês soube dispor com bom gosto cada coisa dentro da gruta. Um altar para a celebração da SantaLOURDES RAE 14_PAN5.jpg Missa no centro. À esquerda, atrás de um cordão de isolamento, a grossa vertente da água milagrosa tão límpida e sonora, coberta por um cristal transparente que deixa ver as borbulhas vívidas do precioso líquido. Não é um fiozinho insignificante que corre, mas é um jorro, imagem imperfeita da magnanimidade de Maria. E à direita, finalmente, a grande rocha com o nicho, onde está a expressiva imagem da Virgem de Lourdes. Vestida com simplicidade, Ela tem a nobreza e distinção da Rainha do Céu, seus olhos se dirigem para cima, como a nos recordar mais uma vez que é para as alturas que devemos olhar. Saindo da gruta, à esquerda, há o velário, o local onde se queimam velas de todos os tamanhos. Mais adiante estão as famosas piscinas. Acima, a Via Crucis, e bem na frente o belo Rio Gave...

Desde 11 de fevereiro de 1858, a Santíssima Virgem vem derramando abundantíssimas graças nesse local. Como é sabido, essa boa Mãe apareceu a Santa Bernadete Soubirous, que então tinha apenas 14 anos. A família dessa jovem era dona de um moinho, mas acontecimentos adversos levaram-na a perder todos os seus bens e cair na mais extrema pobreza. Viu-se forçada a viver na antiga prisão de Lourdes, lugar úmido, escuro e inóspito.

Eventualmente seu pai conseguia algum trabalho, cujo pagamento mal dava para alimentar a numerosa família.
Por estar aos pés dos Pirineus, o inverno nesta região é muito rigoroso e Bernadete contraíra uma enfermidade pulmonar que a fazia sofrer muito.

Um acontecimento extraordinário mudou repentinamente sua vida. Saiu ela uma tarde para apanhar lenha, acompanhada de uma de suas irmãs e de uma prima. Tinham de cruzar o rio, pois do outro lado havia um pequeno bosque. Com a alegria e agilidade próprias da idade, suas companheiras descalçaram-se e, saltando sobre as pedras, chegaram rapidamente ao outro lado. Bernadete atrasou-se, indecisa sobre se deveria ou não meter-se na água fria. Foi neste momento que, levantando os olhos, viu uma senhora muito jovem que a chamava. Uma profunda paz a invadiu e durante o tempo em que a Senhora ali esteve falando com ela, manteve-se de joelhos. Quando suas companheiras retornaram, ela lentamente foi se dando conta do que se passara. Sua irmã e prima não tinham visto nada; a linda Senhora tinha aparecido apenas para ela.

Foi essa a primeira de uma série de 18 aparições nas quais a Santíssima Virgem não apenas transmitiu a essa jovem inocente uma mensagem pedindo oração e penitência pela conversão dos pecadores, mas inaugurou um verdadeiro manancial de graças e milagres. Depois da aparição de 11 de fevereiro, a Rainha do Céu voltou à gruta no dia 14 do mesmo mês, no dia 18 e a partir daí diariamente, com exceção dos dias 22 e 26, até 4 de março. Em 25 de março a Mãe de Deus fez sua 16ª visita a Bernadete, e por fim apareceu-lhe a 7 de abril e a 16 de julho. Suas palavras não foram muitas, mas têm tão profundo significado que vale a pena conhecê-las e meditá-las.

A Santíssima Virgem disse à jovem no dia 18 de fevereiro: .Você quer me fazer o favor de vir aqui durante 15 dias?. Na formulação tão amável do pedido, quantas lições se podem tirar: não é Ela uma rainha que pode dar ordens? Por que quis exprimir-se com tanta suavidade e fineza? O convite da graça é assim, suave, atraente, irresistível. Não é de admirar o comentário feito por várias pessoas, de que as aparições enobreceram a pobre camponesa.
Houve quem lhe perguntasse durante o processo eclesiástico como havia aprendido maneiras tão finas, ao que ela respondeu candidamente: .Foi com a Senhora...

- Eu não prometo fazê-la feliz neste mundo, mas no outro.

LOURDES_RAE 14_PAN3.jpgApesar do tom suave e profundamente maternal, a Santíssima Virgem não lhe escondeu as pesadas cruzes que Bernadete teria de carregar nesta vida. Mas prometeu- lhe o Céu.

- Eu quero que venha aqui muita gente.. Aí está a confirmação do convite individual que cada um recebe para aproximar-se d.Ela. O vir aqui é não só ir a Lourdes, mas, antes de tudo, ir até Ela. É um convite para toda a humanidade; ir até Maria para se santificar.

Durante o tempo das quinze aparições, Nossa Senhora disse a Santa Bernadete: .Você rezará pelos pecadores: você beijará a terra pelos pecadores.(...) Penitência, penitência, penitência!. Beijar a terra significa humilhar-se.

- Vá e diga aos padres que construam aqui uma capela.

(...) Quero que todos venham em procissão.. Este pedido da Mãe de Deus foi belamente atendido, já que foi aí construído o grandioso santuário que continuamente está cheio de fiéis de todas as nações. Nas suas diversas naves e capelas são celebradas diariamente, em média, cinqüenta e duas Missas, em mais de seis línguas. Assim também, desde o início de março até o fim de novembro, há duas procissões diárias. Uma à tarde, com o Santíssimo Sacramento, dignamente levado sob um lindo pálio.

Ao passar pelos numerosos enfermos colocados em macas e atendidos por voluntários, o sacerdote se detém e lhes dá a bênção eucarística. À noite, reúnem-se todos os peregrinos e se realiza a procissão das velas. Desta tomam parte também os enfermos. Em macas ou cadeiras de roda vão constituindo um impressionante batalhão de sofredores, que abre a procissão. Todos os peregrinos levam uma vela acesa envolta em bem-feitas capelinhas de papel. Seguindo a Imagem de Nossa Senhora de Lourdes, os fiéis percorrem a grande esplanada do Santuário. O Rosário é puxado pelos sacerdotes e cada dezena é rezada em um idioma diferente: português, inglês, italiano, japonês, chinês, ucraniano, malayalam, etc... O Glória ao Pai é rezado em latim e canta-se a famosa. Ave, Ave, Ave Maria.... enquanto todos levantam para o alto as velas acesas. Durante o dia os peregrinos que queiram podem inscrever-se para tomar parte na recitação do Rosário na sua própria língua.

A Santíssima Virgem manifestou-se a Santa Bernadete no dia 25 de março declarando: .Eu sou a Imaculada Conceição!. Dizendo isto, dizia tudo. Foi como uma assinatura da Virgem às suas aparições em Lourdes.LOURDES_RAE 14_PAN2.jpg

Os milagres realizados aí sempre foram tão numerosos e extraordinários que as autoridades eclesiásticas constituíram um Bureau franqueado a médicos das mais diversas religiões, e até ateus, no qual são examinados os doentes que, ao chegar ou sair, o solicitarem. Os critérios adotados nos exames são muito rigorosos. Continuamente há casos para os quais a ciência não encontra explicação. Mas, para que uma cura seja reconhecida como milagrosa, a autoridade eclesiástica costuma aguardar anos, a fim de comprovar que o resultado foi duradouro.

A basílica superior tem suas altas e longas paredes recobertas de placas de mármore com inscrições agradecendo graças e favores. Há também tantos corações de ouro ofertados à Virgem Maria como reconhecimento, que alguém teve a feliz idéia de formar com eles as palavras pronunciadas por Maria nas aparições. Nota-se um intenso clima de piedade nessa igreja.

É interessante observar que essas aparições da Virgem fazem parte de um ciclo de manifestações proféticas que visavam fazer com que a humanidade se voltasse para Maria, como meio de abandonar as vias da impureza e do orgulho pelas quais havia infelizmente entrado, e assim voltar-se a Jesus.

Apareceu essa incomparável Mãe também a Santa Catarina Labouré em 1830, na Rue du Bac, em Paris, onde pediu que se cunhasse a Medalha Milagrosa. Em l858 manifesta-se em Lourdes. Em 1917 apareceu aos três pastorzinhos em Fátima. São três aparições que contêm como elemento central um chamado à conversão e a promessa de graças excepcionais para a humanidade, abrindo uma era de misericórdia mariana nunca manifestada antes.

A consideração desse panorama cheio de promessas e de esperança deve fortalecer os laços que nos unem à Mãe de Deus e nos levar a esperar o futuro com entusiasmada confiança.

(Revista Arautos do Evangelho, Fev/2003, n. 14, p. 48 a 51)

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